Brasil, o gigante
desorientado!
:: Andrés Oppenheimer – Tradução: FRANCISCO VIANNA
aoppenheimer@elnuevoherald.com
– Sábado, 05 de maio de 2012
Más notícias para o Brasil: seu momento mágico como o
mercado emergente mais promissor do mundo aos olhos das elites econômicas
internacionais está se esfumaçando, e está sendo substituído por uma avalanche
de prognósticos sombrios. Um artigo no próximo número da influente revista
‘Foreign Affairs’ (Assuntos externos), intitulado “Pessimista sobre o
Brasil” é apenas o último de vários artigos similares publicados nas últimas
semanas e que pintam o Brasil como um país que está empacado ao longo do
caminho.
O artigo da ‘Foreign Affairs’, um
fragmento de um livro intitulado “Breakout Nations” (Nações Fugitivas),
de Ruchir Sharma, o chefe de mercados emergentes da Morgan Stanley, se baseia
num argumento que temos expressado muitas vezes nesta coluna: o crescimento do
Brasil tem dependido demasiado do preço mundial das matérias primas, e o país
enfrentará graves problemas quando esses preços começarem a baixar.
Essa tendência já começou a se manifestar, disse
Sharma. A China, o maior comprador de matérias primas brasileiras, anunciou em
março que sua economia crescerá menos de oito por cento este ano pela primeira
vez desde 1998.
Poucas nações em desenvolvimento têm
conseguido crescer durante varias décadas seguidas graças a suas exportações de
matérias primas, disse Sharma. As que têm crescido de modo sustentado durante
duas ou três décadas, como a China e a Índia, o têm feito graças às suas
exportações de produtos manufaturados e serviços e mesmo de matérias primas,
porém com grande valor agregado.
Enquanto a China se inseriu plenamente no comércio
global e se concentrou em investir em pontes e vias expressas, o Brasil se
encolheu e não investiu em infraestrutura. Não é uma surpresa que a China tenha
crescido quatro vezes mais rápido que o Brasil nas últimas três décadas, disse
Sharma.
Além disso, o Brasil está se prejudicando ao manter
uma das moedas mais caras do mundo. Isso é bom para os brasileiros que querem
comprar apartamentos em Miami, mas péssimo para os exportadores de produtos
manufaturados ou serviços do país, acrescentou.
“O Brasil deve reconhecer que a época de
crescimento fácil para os mercados emergentes e dos altos preços das matérias
primas está terminando’’, e deve realizar urgentes reformas econômicas internas
visando coibir o desperdício e aumentar a produtividade de todos os setores da
economia, concluiu Sharma.
No mês passado um artigo similar da agência de
notícias Reuters disse que devido ao fato de a presidente Dilma Rousseff não tem
impulsionado reformas econômicas audazes, o Brasil se converteu “num lugar cada
vez mais estancado’’. A economia cresceu 2,7 por cento no ano passado, e se
espera que cresça a uma média de 3 por cento nos próximos anos.
Na América latina, a imagem do Brasil como a nova
estrela do mundo emergente também está se extinguindo.
O ex-chanceler do México, Jorge Castaneda, escreveu
recentemente que, contrariamente à opinião generalizada, o México está superando
o Brasil em quase todas as frentes, incluindo o crescimento do PIB e o índice de
homicídios. A diferença é que os brasileiros sabem vender melhor a sua imagem,
afirmou.
E o ex-presidente peruano, Alan García, me disse numa
entrevista recente que o Brasil é “um gigante fatigado” que está ficando cada
vez mais para trás. García fez até piada dizendo que o grupo dos BRICS — o
‘bloco’ das potências emergentes, constituído pelo Brasil, Rússia, Índia, China
e África do Sul— já poderia se chamar “RICS”, uma sigla que inclui os mesmos
países, menos o Brasil.
Até há muito pouco, o Brasil parecia ‘imparável’,
entre outras coisas por ter alegadamente “tirado 30 milhões de pessoas da
pobreza” (algo que hoje é altamente duvidoso), pela recente descoberta de
enormes reservas de petróleo, e por ter sido designado como anfitrião da Copa
Mundial de Futebol em 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016.
Os portais do ‘The Economist’, da revista
‘Time’ e de várias outras publicações de tendências esquerdistas do
mundo, pintavam o Brasil como a nova estrela do mundo emergente. Há apenas umas
poucas semanas, o anúncio de que o Brasil superou a Grã Bretanha como a ‘sexta
maior economia do mundo’ gerou uma nova onda de manifestações dos otimistas de
plantão sobre essa ascensão de status brasileiro, que agora, no entanto, começa
a se reverter.
Minha opinião: Compartilho com as preocupações
sobre o futuro imediato do Brasil, mas sou otimista sobre isso e acho que o
futuro do Brasil é bom no médio e no longo prazo. Infelizmente, para o Brasil, a
classe política dirigente não apresenta as qualidades necessárias que uma grande
potência mundial necessita e a corrupção e a incapacidade administrativa ainda é
de grande monta.
Diferentemente de alguns de seus vizinhos, como a
Argentina e a Venezuela, o Brasil pensa no longo prazo. O Brasil há muito tempo
vem fomentando algumas indústrias chaves, como as das ‘energias alternativas’ e
a fabricação de aviões, está tomando medidas para melhorar a qualidade de sua
educação primária (?!), e recentemente lançou um programa para enviar 100.000
estudantes universitários ao exterior, a maioria deles para estudar ciências e
engenharia em universidades dos Estados Unidos.
Não me parece que o Brasil seja um “gigante fatigado”. Melhor
dizendo, é um “gigante temporariamente desorientado”, que infelizmente ainda não
entendeu plenamente por que outros o estão ultrapassando. Uma vez que saia de
seu estado de confusão mental – em larga margem propiciada pela baixa qualidade
da sua classe política e do alto nível de corrupção que permeia o estado e suas
relações publico-privadas – e se insira mais efetivamente na economia
globalizada — como fazem a China e a Índia— deverá se posicionar melhor para
voltar a competir com renovadas energias.
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Nota do Tradutor: Andrés
Oppenheimer é um aticulista argentino altamente conceituado nos EUA onde forma
opinião sobre o hemisfério sul. Escreve para o Miami
Herald.
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